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Indígena em uma monocultura de eucalipto
Monocultivos de eucalipto estão sobrepostos a terras indígenas no extremo sul da Bahia (© Povo Pataxó)

Perseguição política a indígenas do extremo sul da Bahia está ligada à produção de commodities para exportação

20 de mar. de 2026Brasil: A perseguição aos povos indígenas do extremo sul da Bahia tem escalado nas últimas semanas. Segundo informações da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), quatro caciques foram presos desde o fim de fevereiro até hoje, sem qualquer flagrante ou prova de crime cometido


A perseguição aos povos indígenas do extremo sul da Bahia tem escalado nas últimas semanas. Segundo informações da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), quatro caciques foram presos desde o fim de fevereiro até hoje, sem qualquer flagrante ou prova de crime cometido. São presos políticos os caciques Aruã Pataxó,  Suruí, Joel Braz e Mandyn Pataxó. 

Mandyn Pataxó foi acusado de envolvimento – sem nenhuma prova – no caso em que duas turistas foram baleadas na região da Barra do Cahy, no município de Prado, em 24 de fevereiro. Foi solto no dia 13 de março e agora está sob liberdade condicional, sendo obrigado a usar tornozeleira eletrônica. “Trabalhamos com o povo Pataxó em apoio à defesa do seu território e consideramos que Mandyn Pataxó foi preso injustamente por um crime que não cometeu”, declarou a ativista Guadalupe Rodríguez, da organização Salve a Floresta.

Para os membros da organização alemã, o que está acontecendo no extremo sul da Bahia é uma reação virulenta de alguns fazendeiros aliados a gestores e servidores públicos para manter o domínio sobre as terras dos povos indígenas. “Não por acaso, as violências vêm escalando desde novembro do ano passado, quando foi publicada pelo Ministério da Justiça a portaria declaratória da Terra Indígena Comexatibá, da qual Mandyn Pataxó é uma das lideranças”, afirma Klaus Schenck, de Salve a Floresta. 

A portaria, etapa fundamental no processo de demarcação das terras indígenas, estabelece a “posse permanente do Povo Indígena Pataxó” sobre os cerca de 28 mil hectares que constituem a TI Comexatibá. Outra etapa essencial do processo é a retirada dos não indígenas das terras – e neste caso estamos falando de fazendeiros que, segundo os indígenas, se apropriaram de grandes extensões de territórios originários. Eles serão obrigados a sair, e desde já estão usando a violência para dizer que não vão abrir mão das terras.

E por que essas terras são tão cobiçadas? Porque elas estão na fronteira de expansão agrícola do país, e já estão sendo ou serão utilizadas para produzir commodities – soja, milho, madeira, gado, eucalipto – que vão abastecer o consumo europeu, norte-americano e chinês, primordialmente.

O agronegócio exportador já devastou o sul e o sudeste do Brasil com seus monocultivos. No centro-oeste, onde estão os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, a capacidade de novos plantios já está chegando ao limite. Praticamente não há mais o que desmatar, não há mais recursos hídricos para exaurir nos níveis requeridos pelo agro, e a terra, contaminada pelo uso intensivo de veneno, já não produzirá o suficiente. Com isso, os fazendeiros estão subindo o mapa do país rumo ao norte e nordeste, especialmente para os estados da Bahia, Maranhão e Piauí no nordeste, e Tocantins ao norte.

Um portão de madeira fechado em frente a um pasto com uma plantação de eucaliptos ao fundo
Desertos verdes de eucalipto devastaram a Mata Atlântica no sul da Bahia. Indígenas em retomadas lutam para recuperar a floresta (© RdR/ Klaus Schenck)

O ataque é um recado antigo

A região onde os ataques aos povos indígenas estão acontecendo é o lugar da chegada dos invasores portugueses em 1500 às terras que, depois de saqueadas, viriam a ser rebatizadas de Brasil. Por isso mesmo, a perseguição contra os povos indígenas que estamos vendo agora pode ser modelar para novas violências, porque atualiza na fonte as primeiras investidas coloniais contra os povos daqui.

Isso não é pouca coisa. É simbólico, histórico, material e ancestral. Até os fazendeiros e os gestores públicos aliados a eles sabem disso. Perseguir e sujeitar os indígenas nesta região significa mandar uma mensagem clara – e antiga – a todos os povos originários que ainda resistem e ousam retomar e proteger seus territórios: pela força da violência – das armas de fogo, dos incêndios, do veneno usado como arma química –, o legado de 1500 será mantido, e o saque continuará até a última floresta ser derrubada e a última gota de sangue indígena ser derramada.

Mas não precisa e não deve ser assim. Se o apetite estrangeiro continua soprando as velas das embarcações até aqui, legando desterramento, fome e morte aos povos originários, é fundamental que os consumidores e consumidoras desses países cobrem dos seus governos e empresas a responsabilidade pelos crimes cometidos, sua reparação, justiça e a não repetição.

 

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